domingo, 16 de janeiro de 2011

A Ponte





“Quem me dera/Ao menos uma vez/Como a mais bela tribo/ Dos mais belos índios/ Não ser atacado /Por ser inocente./ Eu quis o perigo/ E até sangrei sozinho/ Entenda!/ Assim pude trazer/ Você de volta pra mim/ Quando descobri/ Que é sempre só você/ Que me entende/ Do início ao fim.” (Índios – Renato Russo)


Um índio entra num shopping em suas vestes naturais, despertando algo como um espanto generalizado nos civilizados. Construção sempre há salvação na destruição, é acordar na hora do apocalipse. Ele caminha perante os olhares espantados, não demonstra nenhuma reação, a cada passo maior se torna o alvoroço. Estive dormindo durante 40 dias e soníferas noites, ainda estou, mas acordado. Dois seguranças aparecem seguram o índio pelo braço e o jogam para fora. Sujeira nos olhos, um bocejo dilacerante, já estou num meio termo. Silêncio é a resposta do Nativo, nenhuma palavra ou grunhido saem de sua boca. Limpo os olhos, mas ainda não vejo nada, saio de casa, vou dormindo. Ele se balança pelos postes em cima de uma ponte, mais uma vez os gritos. Tontura em crescimento quase caio na rua, dormindo por enquanto. Pula na frente de um carro e conversa com ele, parece estar diante de um animal. Quase levanto de minha quase queda, limpo a cabeça suja de lama de um buraco em que quase caio. Os gritos aumentam, o motorista desce do carro e xinga o jovem índio, que o olha sem entendimento. Visão tonta, um monte de carros parados, fila do almoço ou engarrafamento? Ele ainda continua calado, apesar dos urros de amor do senhor da cidade, ele o olha e como se houvesse visto um espírito sujo da floresta, sai em sua longa caminhada, as pessoas assustadas continuam a gritar. Ai! Minha cabeça tá rachando, estou escutando gritos de gralhas que vêem dos carros, o que é isso? o que é aquele raio que vejo vindo em minha direção? O índio corre e de repente para em frente a um garoto e o olha, parece que encontrou o que tanto procurava.

– Ei quem é você? - pergunto o cara não me responde e ainda por cima me pega pelo braço.

O Índio se espanta com sua visão e puxa o garoto pelo braço o levando para beira da ponte.

– Ei cara me solta, você tá me levando para onde? - Os gritos aumentam...

Estou agora rumando ao fim, o vento forte rompe meu ouvido, a velocidade é cruel. O índio salta da ponte levando o garoto consigo para o salto da vida, os gritos estão mais fortes, embora não os ouça claramente. Encontro o começo de minha eternidade, um beijo nos lábios salgados do mar, sinto minha coluna espatifasse no vidro de águas. O Índio continua mesmo com a queda sem falar, o garoto também para de gritar, o índio antes de entrar no espelho fala: - Acorde. Ao entrar em contato com água, que susto estou no meu quarto, na minha cama, todo mijado.

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