quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Véu da Princesa Desacordada. I




Ela coça a cabeça, já sente um volume em seu ventre, embora ninguém a fale, ela percebe que há murmúrios ao seu redor. Seu vestido está um pouco surrado, mesmo assim ela o trata como um véu de princesa, com todos os perfumes e cuidados que as camareiras reais dariam a essa divina veste. O quarto parece tão pequeno, quando era criança aquele parecia um reino, onde inventava mil histórias, castelos, princesas frágeis em torres altas vigiadas por soldados valentes, na espera de um príncipe encantado que a tiraria de sua letargia, tudo isso cabia ali, agora tudo aquilo havia desaparecido, o medo tomou o lugar da imaginação. Dirigi-se até a cômoda encostada em um dos cantos do quarto, pega sua escova, ela ainda tem alguns fios de seu cabelo negro, ainda cheiroso, ela aperta a escova contra seu peito, fecha os olhos, que gostosa lembrança era aquela, tudo cabia, tudo era só o seu mundo, não havia homens, só príncipes. Uma lágrima escorre sinuosa de seus olhos e desenha uma curva de rio em seu rosto, antes ela procuraria o colo de sua mãe, agora só havia a si para curar a sua solidão. O espelho na sua frente, um pouco desgastado guarda tantas lembranças, suas amigas reunidas em frente dele, fazendo caretas, poses de modelos, maquiagens glamorosas e outras fantasias femininas. Naquele olhar triste está tanta mágoa, tanto medo, mesmo assim um sorriso ameaça aquele clima de desolação, um riso frágil, mas mesmo assim um riso, de fazer inveja a qualquer modelete de creme dental. Os murmúrios atrás da porta aumentam, seu peito começa a ficar tão apertado quanto o quarto cheio de lembranças, a cada voz lá fora parece que um murro é dado em sua cabeça, a frágil mulher quer ver a luz, dirige-se até a janela, abre e contempla o mundo lá fora, tão perfeito imenso, como uma aquarela, será que existe um pintor? Será mesmo? E se ele existe, por que não muda aquele quadro abstrato com toques barrocos que se tornou sua vida, em um lindo quadro romântico, com um príncipe que lhe canta as mais belas canções, enquanto ela saboreia doces morangos. Mas, sua mente não está em ponto de devagar sobre questões existenciais, o que a espera está muito mais para Realismo Radical, com toques de modernismo confuso, do que simples questões amorosas, mesmo assim ela sente. Lá fora algumas meninas passam fardadas, com mochilas, fichários nas mãos, tão bem arrumadas, com seus perfumes que desenham flores quando andam, um aperto maior vem em seu coração, uma daquelas meninas segura seu fichário como se segurasse uma criança, que saudade ela sentia agora, mas esse sentimento trazia consigo também um pouco de mágoa, ela se imagina naquele local, onde outrora passeava deslumbrante com seu uniforme cheiroso e bem passado, que fazia a inveja de outras meninas, até mulheres. Tão exuberante que despertava a libido de meninos traquinas que viviam a jogar bola naquela rua, em especial de um, que se tornaria seu primeiro fica. Foram tantos os pedidos de enlace, tantas cartas e alcoviteiras a tentar algo para aquele jovem esportista de rua, que um dia ela acabou cedendo às aventuras de um primeiro amor, todos perceberam o que havia ali, menos a família dela, já que quase sempre são os últimos a saber, mas, como uma rua, uma escola, amigas e suas mães, sempre são amigas da sua, a pobre menina acabou ficando proibida de encontrar o jovem rapaz, sob pena de ser enviada para a casa da Tia Amélia, uma triste senhora sem filhos. Passaram-se alguns anos e mesmo com alguns encontros ás escondidas aquele sentimento inicial acabou se esvaindo, mas tão especial que naquela contemplação de luz, essa foi a principal lembrança. – Ah, como queria viver pra sempre aqueles momentos iniciais, de amor e pureza de um amor de juventude – queixa-se ao infinito a jovem donzela deflorada. Os murmúrios aumentam ficando quase insuportáveis, ela vacila na janela, como se fosse desmaiar, no entanto se segura, ainda tem força, afinal já era mulher, completara 18 anos recentemente e com a responsabilidade que teria de enfrentar pela frente, aquele murmúrio não passava de um simples enjôo, mas que agora incomodava. Um vento fresco invade o quarto, como se fosse um sinal ancestral que esperava, para anunciar o momento certo ou mais adequado para sua confissão, aquele vento toma conta de seu corpo, ocupando por enquanto o lugar do medo e de suas lembranças, arruma o cabelo, enxuga as lágrimas, abre a porta do quarto e sai gloriosa como uma princesa a atravessar o salão de bailes real... continua...

2 comentários:

  1. Muito bom mesmo. Gostei da foto, gostei da sensibilidade, gostei do cuidado com os detalhes, gostei da narrativa... Parabéns, espero a continuação!

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  2. É muito bom mesmo, contar com a leitura dos amigos e dos possíveis novos amigos, como diz Caio Fernando, "eu escrevo para ser amado" :)Embora, prefiro dizer que escrevo para desabafar :)

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